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Sexta-Feira, 28 de Junho de 2019, 17h:13
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MARCELO FERRAZ
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“O rei está nu!”

Por: MARCELO FERRAZ

MARCELO FERRAZ

 

Esta estória adaptada baseada na narrativa de Hans Christian Andersen é um conto que trata da vaidade humana. Pois bem, a exposição literária, de certa forma, pode revelar toda estrutura moral da trajetória do “mito” até a eleição presidencial dele, bem como o seu desempenho nesses primeiros meses de mandato.  

 

Porém, para ilustrar melhor este contexto, vale a pena trazer aqui essa versão de “A roupa nova do rei”:

 

“Era uma vez um rei muito vaidoso e que gostava de andar muito bem arranjado. Um dia, um alfaiate espertalhão deu-lhe o seguinte conselho:

 

- Majestade, é do meu conhecimento que apreciais andar sempre muito bem vestido, como ninguém; e bem o mereceis! Descobri um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um manto assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes das pessoas tolas, parvas e estúpidas que não servirão para a vossa corte.

 

- Oh! Mas é uma descoberta espantosa! - respondeu o rei. - Traga-me já esse tecido e faça-me a roupa; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço.

 

O alfaiate aldrabão então tirou as medidas do rei e, daí a algumas semanas, apresentou-se, dizendo:

 

- Aqui está o manto de Vossa Majestade.

 

O rei não via nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu:

 

- Oh! Como é belo!

 

Então o alfaiate fez de conta que estava vestindo o manto no rei, com todos os gestos necessários e exclamações elogiosas:

 

- Vossa Majestade está tão elegante! Todos vos invejarão!

 

A notícia correu toda a cidade: o rei tinha um manto que só os inteligentes eram capazes de ver. Um dia, o rei decidiu sair para se mostrar ao povo, desfilando pela cidade, com sua comitiva real acompanhando.

 

Toda a gente fingia admirar a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou:

 

- Olha, olha! O rei está nu!

 

Ninguém conseguiu segurar o riso. Envergonhado e arrependido da sua vaidade, correu a esconder-se no palácio.”

 

Agora, interpretando esse pequeno conto e fazendo um paralelo metafórico entre a vaidade física e a política, percebe-se que Bolsonaro vendeu ilusões ao povo – de que seu governo representaria uma nova política, um novo estilo de vida, ou seja, uma roupa invisível que só enxergava mesmo quem odiava o PT, não tinha nenhuma opção ideológica de esquerda e queria de qualquer forma um representante da direita no poder.

 

Ainda que, para essa missão, fosse eleito um capitão da reserva, que não batesse bem das ideias ao ponto de acreditar, ou fingir que estava acreditando, em um novo modelo de se fazer política - aquela que iria desaparelhar todos os tentáculos dos “socialistas” da gestão pública, acabar com fisiologismo partidário  e trancafiar para sempre o líder dos petistas na cadeia.

 

Dito e feito, o plano nada estratégico e fantasioso dos bolsonaristas acabou aparentemente se realizando: prenderam os “inimigos” que espoliaram os cofres públicos; desaparelharam a máquina pública, mas, o mais importante de toda essa guinada "à direita volver" eles não fizeram ainda...apresentar um plano de governo para implementar políticas de Estado e assim começar a reconstruir o país.  

 

Enfim, a maioria deles, incluindo o próprio líder, assim como outros populistas da História Política do Brasil, chegou ao poder prometendo o que nunca poderia cumprir. Isso mesmo, uma boa parte da população brasileira que não suportava mais um bando de corruptos disfarçados de socialistas, indignada com a politicagem petista, acabou caindo em um verdadeiro “conto de fadas” criado pelo grupo dos bolsonaristas.

 

Não obstante a isso, Bolsonaro, após cair no ridículo e perder o apoio dos congressistas e até dos próprios militantes do partido dele, está percebendo que é impossível colocar os discursos revanchistas de campanha em prática, já que a maioria de suas propostas não têm viabilidade constitucional perante o Congresso Nacional e muito menos diante do Supremo Tribunal Federal (STF).  

 

A farda invisível da moralidade irrestrita, que elegeu Bolsonaro, só podia ver mesmo quem fingia que não era tolo – uma massa de súditos da direita desejando a inquisição pública e generalizada dos políticos supostamente de esquerda, mesmo para aqueles que não tivessem, de fato, uma militância ideológica deste viés.

 

No entanto, uma vez no poder, a coisa toda ficou à deriva e a deus dará, sem prumo e sem rumo. Uma verdadeira Babilônia desgovernada, eivada do extremismo ideológico de direita e sem um norte republicano, o que está efetivamente, na prática, impedindo os avanços políticos para se aprovar as reformas devidas neste país.    

 

Mas, os prejuízos de instituir no poder um representante despreparado, sem habilidade política para tocar a governabilidade e desprovido de experiência Executiva, os eleitores de Bolsonaro não quiseram calcular. 

 

Enfim, para explicar os contínuos colapsos ilusórios e as insanidades do governo atual, o leitor pode reler as palavras francas do historiador e professor Marco Antonio Villa: "Há sucessivas crises todas as semanas. É necessário colocar ordem. O Governo não pode ter como norte um marginal como Olavo de Carvalho. Ele xinga, usa palavras de baixo calão para se referir a membros do Governo. Como é possível uma pessoa xingar o general Santos Cruz e ser homenageado pelo presidente da República? O que isso sinaliza ao mercado? Que o país é um caos! Estamos entre loucos e cachaceiros?".

 

Todavia, com o passar do tempo, os cidadãos mais conscientes e menos fundamentalistas, assim como aquela criança que teve a coragem de enxergar a verdade (gritando que o rei estava nu), também percebeu que as ideias de Bolsonaro não eram reais, ou seja, apenas fábulas populistas que advinham da manta moralista e invisível de um político despreparado, inculto e sem o verdadeiro espírito público de estadista. Resumindo essa resenha, já dizia um provérbio popular: “Quanto maior a vaidade, mais tolos nos tornamos”.

 

Marcelo Ferraz é jornalista e escritor.        

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Edição 200 Outubro de 2019

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