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Segunda-Feira, 27 de Janeiro de 2020, 08h:44
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Rosana Bom Despacho: “Muitas mulheres quando se veem agredidas, tiram a queixa por conta do fator emocional. Muitas entram em um ciclo de violência”

Por: Rayane Alves

 

Levantamento realizado pela Coordenadoria de Estatística e Análise Criminal (CEAC) da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT) aponta que 87 mulheres foram assassinadas em Mato Grosso em 2019, sendo que 39 casos correspondem a feminicídios. Os dados são alarmantes, e talvez justificam a revolta e manifestações contrárias contra as negociações visando a contratação do goleiro Bruno Fernandes das Dores de Souza, condenado há mais de 20 anos de prisão por participação na morte da modelo Eliza Samudio, que era amante e mãe de um filho, pelo Operário Várzea-grandense, que fizeram com que o clube desistisse de trazer o ex-goleiro do Flamengo. 

 

Com isso, a reportagem do jornal Notícia Max conversou com a psicóloga forense Rosana Bom Despacho, que além de além de criticar a negociação para a vinda de Bruno para o Operário, fala ainda sobre a violência contra a mulher, as causas do relacionamento abusivo e sobre a Lei do Feminicídio

 

Notícia Max - A senhora se posicionou contrária à contratação do goleiro Bruno pelo Operário. Em sua opinião, essa negociação para vinda do jogador pode ser vista como maléfica? Afinal, coloca uma pessoa acusada de homicídio em evidência, colocando Bruno como um “astro” em um esporte que deveria servir de exemplo?

 

Rosana Bom Despacho - Considero as negociações visando a contratação do goleiro Bruno negativa. Compreendo que ele já respondeu para a Justiça a responsabilidade pelo fato que ocorreu com a modelo Elisa Samudio. Porém, eu enquanto pessoa, cidadã e torcedora do Operário me entristeci muito com a notícia da possível contratação desse goleiro.  Porque a presença dele no campo de futebol representando o time certamente traria um desconforto emocional. Não só para mim como mulher e sim para muitas. Infelizmente a presença dele nos remete muito a lembrança do fato que ocorreu com a Elisa. 

 

Então, repudiei a contratação do Bruno. Repudio toda e qualquer forma de violência. Em especial aqui falando sobre feminicídio e homicídio, que é o fato de tirar a vida de uma pessoa. Isso é um fato muito triste de causar indignação. Penso como está a família da jovem que não teve a chance de viver, de ver o filho desenvolver e crescer e nem mesmo a dignidade de ter o seu corpo sepultado.

 

Agora, a família dela não tem nem a referência onde ela está sepultada. O filho dela não vai ter também nem como dizer onde a mãe está sepultada. Isso é muito triste porque o desenvolvimento dessa criança na ausência dessa mãe com histórico triste. O que faz com que a relação afetiva com esse pai seja prejudicada. Repudio sim, vejo a imagem dele como negativa. 

 

É profissional, é. Tem direito a seguir a vida dele? Sim. Mas esse direito e chance ele fez uma trajetória tão bonita em outros times e estados e lá talvez ele nem teve essa consideração de ter a contratação novamente no Flamengo e de outros próximos que conheceram a trajetória profissional dele.

 

Notícia Max - O que falta, na opinião da senhora, para que haja uma ação mais efetiva no combate à violência contra as mulheres? Ainda há uma dificuldade para que essas mulheres vítimas de violência denunciem os seus agressores?

 

Rosana Bom Despacho - É necessário um trabalho bem mais profundo de sensibilização quanto ao fator cultural e educacional das nossas crianças. Tanto menina quanto menino tem que crescer tendo a educação tanto em casa e na escola; comunidade; meio social que esteja a orientação de que agressão gera agressão. Violência gera violência. Independente de sexo, situação econômica, devemos educar os filhos orientando com diálogo e conversa. E não incentivar a violência. O outro é mais fraco você pode mostrar poder, superioridade e força? Não.

 

Temos que apreender desde cedo do berço a respeitar as pessoas. A tratar a todos com igualdade de condições. Isso é o correto. Então precisamos sensibilizar mais toda a sociedade sobre isso. Ainda há sim, muita dificuldade das vítimas denunciarem seus agressores devido essa colocação de poder. As relações demonstram mais poder que o outro. 

 

Infelizmente gera muitas relações adoecidas emocionalmente, afetiva, onde o amor nem sempre prevalece e sim a colocação de poder. Muito triste tudo isso. Precisamos mudar essa situação e incentivar uma educação mais igualitária. Socialmente falando e respeito entre as pessoas. O amor ao próximo, o respeito ao outro somos todos iguais perante a sociedade e uma constituição que nos remete a isso. Então precisamos executar.

 

No meu tempo de criança, por exemplo, a gente ouvia dizer que o homem que bate em mulher é covarde. Hoje não só agride como tira a vida delas. Ninguém tem esse direito. A mulher não tem o direito de ofender de agredir ou de tirar a vida, assim como o homem também não. Somos seres humanos acima de tudo.

 

Notícia Max - Por que, na visão da senhora, muitas vezes essas mulheres até mesmo retiram as queixas contra os agressores, após o atendimento policial?

 

Rosana Bom Despacho - Muitas mulheres quando se veem agredidas naquele momento conflitante ou sofrimento porque a agressão ela traz muito sofrimento ou intimidação, muitas mulheres tiram a queixa por conta do fator emocional dessas mulheres. Muitas entram em um ciclo de violência. É um ciclo onde a dependência emocional faz toda a diferença, já que emocionalmente elas se tornam dependentes, sentem inferiores incapazes, de talvez de prover o próprio sustento, e criam ali uma falsa dependência econômica porque elas são capazes de reagir de procurar trabalho, de sustentar, mas emocionalmente se sentem, ou se colocam como vítimas.

 

Se vitimizam porque além do amor, do gostar ou da esperança daquele homem não fazer mais ou das promessas de que eu vai mudar, melhorar, acabam reatando porque após o conflito vem um período conhecido como lua de mel, reaproximação, o namoro, a promessa de que isso não vai mais acontecer. Com isso, o casal tem um tempo de trégua, onde se reaproximam e está tudo bem. Mas infelizmente os conflitos surgem novamente e vem novas brigas com agressões verbais, descontentamento, pois passa pra fase onde a agressão verbal já não satisfaz e sim físicas e sempre é aquele vai e volta.  

 

Ou o homem acha que a mulher não tem autonomia de por um fim no relacionamento ai vem e reatam de novo até que chega um ponto onde as brigas tomam proporções cada vez maiores e realmente algumas mulheres têm perdido a vida com isso. Companheiro não aceita o fim do relacionamento ou acha que a ex-companheira não tem o direito de seguir a vida sem ele.

 

Notícia Max- Como avalia a recepção da sociedade à Lei do Feminicídio e em relação ao próprio conceito?

 

Rosana Bom Despacho - A Lei do Feminicídio e o conceito tem sido muito abordado nas mídias e redes sociais. E isso tem realmente sido muito falado, mas vemos que a aplicabilidade continua muito prejudicada, porque vemos que as mulheres dão a queixa e retiram.

 

Já outras dão e não tem policial pra ficar na porta de casa cuidando. E, esses agressores muitas vezes não respeitam e continuam procurando essas intrigas até ceifar vida delas.

 

A efetivação dessa lei precisa ainda de muitas melhorias de políticas públicas de proteção à mulher, e, ainda sensibilizar a sociedade a orientar essas mulheres.

 

Os agressores também precisam estar em acompanhamento, ou atendimento. Saber o porquê dessas relações abusivas. Os psicólogos fazem grandes trabalhos com isso. Mas, não tem procura. A demanda é identificada, mas não tem clientela. E, acima disso tudo tem a lei que precisa ser cumprida com todo rigor.

 

Notícia Max - Por que muitas mulheres aceitam um relacionamento abusivo, que muitas vezes acabam em agressões físicas?

 

Rosana Bom Despacho - As mulheres muitas vezes se sujeitam a relacionamentos abusivos devido a dependência emocional ou financeira. Elas veem que essa situação toma proporção muito grande e elas tentam sair e não consegue devido a colocação de poder do companheiro sobre elas.

 

 Precisamos falar mais sobre esse assunto e fazer um trabalho de orientação com as crianças, assim como rodas de conversas, publicações em redes sociais, antes que o pior aconteça.

 

Este é um trabalho não apenas dos profissionais e também pra toda comunidade, igrejas e famílias e rodas de amigos, já que é um problema que atinge a todos.

 

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Edição 216 Fevereiro de 2020

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