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AGRONEGÓCIO Terça-feira, 03 de Fevereiro de 2026, 09:15 - A | A

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no Brasil

Estudo quantifica déficit de carbono associado a mudanças de uso da terra

Embrapa

Um estudo inédito aponta que a conversão de vegetação nativa em áreas agropecuárias nos seis biomas brasileiros resultou em um déficit de 1,4 bilhão de toneladas de carbono na camada de 0 a 30 centímetros do solo. Essa perda equivale a uma emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO2 eq (equivalente de gás carbônico). O dado baseia-se em pesquisa que avaliou mais de 370 estudos e indica áreas com maior potencial de recarbonização do solo, além de gerar subsídios para políticas públicas e ações privadas voltadas à adoção de práticas agrícolas sustentáveis.

A pesquisa, publicada na revista Nature Communications, foi desenvolvida por cientistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon/USP), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e da Embrapa.

Essa é a primeira vez em que se calcula o estoque de carbono no Brasil antes de intervenções antrópicas e se mensura o déficit causado pela conversão das áreas de vegetação nativa em lavouras e pastagens.

O trabalho utilizou uma extensa base de dados com 4.290 amostras de solo, coletadas em diferentes profundidades (0 - 10 cm, 0 - 20 cm, 0 - 30 cm e 0 - 100 cm), provenientes de áreas de vegetação nativa e de áreas de uso agropecuário em todo o País. As diferenças entre os valores de estoque de carbono orgânico no solo serviu de base para o cálculo e possibilitou o entendimento sobre a perda de carbono em seis biomas, cinco tipos de solo e diferentes níveis de intensificação do manejo agropecuário.

“Ao mesmo tempo em que quantifica o problema, a pesquisa aponta oportunidades de incremento de carbono com a mudança de práticas agropecuárias, iniciativas de políticas públicas ou ações privadas”, explica Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa.

De acordo com João Marcos Villela, primeiro autor do artigo e bolsista da Esalq/USP, o estudo traça uma linha de base sobre a perda de carbono no Brasil e serve de referência para outras pesquisas nessa temática.

“Como os dados vêm de diferentes estudos, não há uma uniformidade metodológica. Porém, antes não tínhamos informações com essa amplitude. Esse trabalho serve como ponto de referência para ações futuras”, afirma Villela, destacando que o CCarbon aprovou um projeto para ampliar a coleta de dados em todo o Brasil de forma padronizada, possibilitando o refinamento dos números.

O banco de dados é fruto de um trabalho de sistematização com base em mais de 370 estudos. “Foi uma avaliação muito extensa, na qual utilizamos vários critérios; desmembramos, por exemplo, com informações geográficas, tipos de solo, o bioma e os manejos. Coletamos esses dados e, a partir disso, procuramos fazer algo que fizesse sentido para nosso País, em termos de mercado de carbono e mudanças climáticas”, explica Júnior Damian, bolsista da Embrapa e um dos responsáveis pelo banco de dados. O banco publicado no artigo está em formato aberto e disponível para outros estudos.

Clima interfere na perda de carbono

Além de mensurar a perda de carbono provocada pelas mudanças de uso da terra, os pesquisadores quiseram saber quais as alternativas para aumentar o estoque de carbono, podendo retornar ao estágio inicial, ou até mesmo superá-lo.

A análise dos dados confirmou que o clima é um fator importante no balanço de perdas e armazenamento de carbono orgânico no solo. Locais mais frios e úmidos, como os biomas Pampa e Mata Atlântica, apresentaram maiores estoques de carbono em comparação aos biomas de climas tropicais, como Cerrado, Pantanal, Caatinga e Amazônia.

Da mesma forma, alterações de uso da terra, com introdução de práticas agropecuárias, causaram maior perda de carbono nos locais com maior estoque inicial.

Papel das práticas agrícolas sustentáveis

O estudo comparou também o estoque de carbono no solo em diferentes sistemas produtivos, como monocultura, rotação de culturas e plantios integrados como a integração lavoura-pecuária (ILP). De acordo com os dados, as perdas de carbono diminuem conforme a intensificação e diversificação dos sistemas agrícolas.

A conversão da vegetação nativa em monocultura resultou em uma perda média de 22% na matéria orgânica, enquanto em sistemas agrícolas integrados a perda foi de 8,6%. O sistema plantio direto (foto à direita) também se mostrou menos suscetível à perda de carbono do que o plantio convencional. Nesse sistema, a redução foi de 11,4%, enquanto no cultivo convencional foi de 21,4%. Isso resulta em uma diferença de 47% entre as duas técnicas de semeadura.

Direcionamento de políticas para recarbonização

A quantificação do carbono perdido possibilita teorizar o potencial de estoque de carbono do País e orientar as regiões onde é mais fácil elevar o carbono orgânico no solo. De acordo com os pesquisadores, cerca de 72% do potencial de recarbonização está nos biomas Cerrado e Mata Atlântica. O Cerrado contribuiria com 0,53 bilhões de toneladas de C, a Mata Atlântica com 0,48 bilhões de toneladas de C.

O foco em regiões com maior potencial de aumento do estoque de carbono fará o Brasil atingir a meta estabelecida em suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) no Acordo de Paris. Apesar das limitações, o estudo oferece uma boa referência quantitativa, permitindo afirmar que, ao recarbonizar um terço do potencial estimado, a meta de redução das emissões brasileiras, entre 59-67%, será alcançada até 2035.

“Entender qual a diferença dessa diversidade de climas, biomas e sistemas produtivos, tanto no âmbito de perdas, quanto de ganhos, serve para direcionar soluções mais adaptadas. Conseguimos direcionar o sistema agrícola com maior eficiência no aporte de carbono em cada região”, destaca João Marcos Villela.

Mercado de carbono

Além de subsidiar políticas públicas para recarbonização, a pesquisa traz uma informação importante sobre o potencial do mercado de carbono no Brasil. Daniel Potma, atualmente pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, e vinculado à Universidade Estadual de Ponta Grossa na época do estudo, afirma que definir o déficit de carbono permite estimar o tamanho que esse mercado pode atingir.

“Conhecendo o tamanho do “pote”, 1,4 bilhão de toneladas de carbono, é possível saber quanto isso vale em termos de recursos, o que poderá ser um chamariz para atrair investimentos na economia da descarbonização”, destaca.

Respaldo internacional

A publicação desse estudo em um periódico de grande impacto como a Nature Communications contribui para o reconhecimento da ciência brasileira e dos dados sobre emissões de gases de efeito estufa na agropecuária nacional.

O pesquisador Luis Gustavo Barioni ressalta que as negociações sobre clima e compromissos dos países ocorrem com base em informações científicas reconhecidas pela comunidade internacional. Dessa forma, pesquisas como essa fortalecem a diplomacia brasileira.

“Informações confiáveis obtidas em âmbito nacional são fundamentais para respaldar e dar credibilidade às nossas políticas e outras iniciativas em nível global”, complementa Barioni.

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