O Banco Central destacou nesta terça-feira a melhora do ambiente inflacionário e as expectativas de inflação "menos distantes" da meta de 3,0% na ata para justificar sua decisão de sinalizar o início do corte de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em março.
Na ata do Copom, o colegiado, porém, sinalizou desconforto com o dinamismo do mercado de trabalho e disse que o tamanho do ciclo será determinado ao longo do tempo para garantir a convergência da inflação à meta de 3,0%.
A taxa Selic está parada em 15% ao ano, maior nível em quase 20 anos, desde junho de 2025. De lá para cá, foram cinco reuniões e o BC vinha mantendo até janeiro, em meio a reclamações crescentes do governo, um tom bastante duro para assegurar o alívio inflacionário .
"Após a análise de um amplo conjunto de informações, incluindo a dinâmica recente da inflação e os sinais mais claros de transmissão da política monetária, considerando suas defasagens, o Comitê julgou adequado sinalizar o início de um ciclo de redução da taxa de juros em sua próxima reunião", disse o Copom, na ata.
Segundo o BC, houve aprofundamento da discussão sobre ajustes nos juros após a avaliação de que a estratégia de manutenção da taxa Selic por período bastante prolongado tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação à meta, e em um contexto de melhora do quadro inflacionário.
O alvo é de 3,0%, embora a meta seja considerada cumprida se a inflação ficar no intervalo entre 1,5% e 4,5%. O IPCA - índice de inflação oficial - fechou 2025 em 4,26%, mas o BC projeta que chegará a 3,2% no terceiro trimestre de 2027, prazo com o qual trabalha atualmente para cumprir sua obrigação institucional.
"Após avaliar que a estratégia em curso, de manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado, tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação à meta, o Comitê se aprofundou na discussão sobre calibração da política monetária, no contexto atual de um ambiente de melhora do cenário inflacionário corrente e expectativas de inflação menos distantes da meta, que proporciona maiores evidências sobre a transmissão da política monetária."
No comunicado da semana passada, o BC já havia deixado claro que pretende iniciar o ciclo de redução da taxa Selic na próxima reunião do Copom, mas que os juros devem continuar em nível restritivo para garantir a convergência da inflação à meta de 3,0%.
"O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta. O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária", disse o Copom, no comunicado divulgado após a reunião da última quarta-feira.
Na ata, o Copom destacou que a condução cautelosa da política monetária tem contribuído para se observar ganhos desinflacionários e reafirmou mais uma vez o firme compromisso com o mandato do Banco Central de levar a inflação à meta. Por isso, ressaltou a necessidade de os juros permanecerem em níveis restritivos (que desincentivam o crescimento da atividade) até que "se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas à meta".
No documento divulgado nesta terça-feira, o colegiado sinalizou que o maior desconforto é com o dinamismo ainda observado no mercado de trabalho, principal fator que pressiona os preços correntes e esperados. A taxa de desemprego fechou 2025 em trajetória decrescente, em 5,1%, menor nível da série histórica.
Ainda segundo a ata, esse entendimento cuidadoso é compartilhado de forma unânime entre os diretores do BC. Atualmente, o colegiado tem sete integrantes. As diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro e Resolução estão vagas desde o início deste ano após a saída de Diogo Guillen e Renato Dias Gomes.
"Ao mesmo tempo, de maneira unânime, o Comitê reafirma a necessidade da manutenção do patamar de juros em níveis restritivos, até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas à meta, dada a resiliência de fatores que pressionam preços tanto correntes quanto esperados, em especial do dinamismo ainda observado no mercado de trabalho."
Nesse contexto, o BC afirmou que a magnitude e a duração do ciclo de queda da Selic serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às suas análises, permitindo uma avaliação mais precisa.
"Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços ainda dificultam a identificação de tendências claras."
De olho no emprego
Principal fator de desconforto em relação ao cenário inflacionário, o mercado de trabalho está sendo acompanhado detidamente, segundo o BC. "No período mais recente, a taxa de desemprego tem se mantido em patamares historicamente baixos enquanto os rendimentos reais médios têm mantido a tendência de elevação acima do crescimento da produtividade do trabalho."
O colegiado ainda afirmou que segue atento ao debate sobre as dimensões corrente e estrutural do mercado de trabalho, enfatizando a necessidade dessa análise para a avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, por fim, para os preços dos diversos setores da economia.
De maneira geral, o BC avalia que a atividade econômica no Brasil manteve trajetória de moderação no crescimento, como era esperado pelo comitê, e relembra que o arrefecimento é "elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta".
O colegiado ressaltou que a moderação e a própria heterogeneidade das trajetórias de crescimento entre diferentes setores e mercados são compatíveis com a política monetária em curso. Enquanto mercados mais sensíveis às condições financeiras apresentam maior desaceleração, mercados mais sensíveis à renda apresentam maior resiliência.
Em relação ao comportamento inflacionário, fez uma avaliação mais positiva. Segundo o BC, as leituras recentes indicam um arrefecimento da inflação que abrange tanto o índice cheio quanto em aberturas e medidas subjacentes.
O Copom destacou que a combinação de um câmbio mais apreciado e um comportamento mais benigno das commodities contribuiu para redução nas inflações de bens industrializados e alimentos. No caso da inflação de serviços, também houve algum arrefecimento, na avaliação do BC, ainda que mais resiliente, o que responde a um mercado de trabalho que segue dinâmico e a uma atividade que tem apresentado moderação gradual.
"Mantém-se, de um lado, a interpretação de uma inflação pressionada pela demanda e que requer uma política monetária contracionista por um período bastante prolongado e, de outro, a interpretação de que a política monetária tem contribuído de forma determinante para a desinflação observada."
Quanto às expectativas de inflação, a avaliação foi de que seguiram trajetória de queda, mas ainda acima da meta.
"O Comitê avalia que perseverança, firmeza e serenidade na condução da política monetária favorecerão a continuidade desse movimento, importante para a convergência da inflação à meta com menor custo. A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do Comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado."
No cenário externo, por sua vez, a avaliação do BC foi de que as condições recentes sugerem "algum arrefecimento" na incerteza, embora os riscos de longo prazo se mantenham. O BC fez menção ao aumento das tensões geopolíticas e disse que os desdobramentos estão sendo monitorados.
"Elevações das tensões geopolíticas e seus desdobramentos seguem sendo monitorados, porém no contexto atual os preços das principais commodities permaneceram contidos, e as condições financeiras, favoráveis."
O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, destacou que o BC reconhece de maneira mais firme o processo de desinflação na ata do Copom, mas notou que o mercado de trabalho é uma variável-chave para os próximos passos de política monetária.
— A preocupação está com preços de serviços, principalmente, ao meu ver, nos intensivos em mão de obra, muito por conta do mercado de trabalho que segue bastante aquecido no Brasil. Esse é um ponto que foi sinalizado pelo BC como um fator de atenção, que o mercado de trabalho segue apertado e é uma variável-chave que vai monitorar em próximas decisões.
Sung ainda destacou que o BC não deu sinalizações sobre o tamanho do ciclo de corte de juros, decisão, segundo ele, acertada em um momento que as expectativas de inflação seguem acima da meta.
— Os cortes serão decididos reunião a reunião. Acho que é fato bastante importante, porque de fato tem que adotar postura bastante cautelosa nessa transição da economia brasileira de desaceleração da atividade e desinflação. As expectativas de inflação melhoraram, mas ainda estão acima da meta. Então o BC precisa manter essa cautela para levar a inflação à meta.
CLIQUE AQUI e faça parte do nosso grupo para receber as últimas do Noticia Max.



0 Comentários