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OPINIÃO Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2026, 08:19 - A | A

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2026, 08h:19 - A | A

Rhayssa Alves

A força do agronegócio brasileiro e seus reflexos pouco visíveis

Rhayssa Alves

O Brasil é uma potência agropecuária global. Está entre os maiores produtores mundiais de soja e milho, entre os principais produtores de algodão e entre os grandes produtores de carne bovina do planeta. Não é figura de linguagem. É escala econômica mensurável, baseada em levantamentos oficiais de produção e comércio internacional.

Agora a pergunta direta: o que isso muda no seu dia a dia, você sendo ou não do setor
agropecuário?

Muda principalmente aquilo que pesa no seu bolso.

Na safra 2023/2024 e nas estimativas consolidadas da safra 2024/2025 divulgadas pela Conab, o Brasil superou 320 milhões de toneladas de grãos produzidos. Dentro desse volume, estados como Mato Grosso concentram parcelas relevantes da soja e do milho nacional.

 Não se trata apenas de produtividade rural. Trata-se de escala com efeito direto na economia.

Soja e milho formam a base da ração animal e influenciam o custo de produção de frango, suínos, ovos, leite e carne bovina. Na prática, isso significa que o preço do ovo da semana, do leite do café da manhã ou do churrasco de domingo depende diretamente do desempenho da safra. Quando a oferta é elevada, o custo dessas proteínas tende a variar menos. Isso não
significa preços baixos automaticamente, mas reduz oscilações bruscas em períodos de instabilidade internacional. Países dependentes de importação sentem esses choques com maior intensidade. O Brasil, por produzir em larga escala, consegue amortecer parte desses impactos.

Na pecuária, os números seguem na mesma direção. Em 2024, o Brasil registrou cerca de 238 milhões de cabeças de gado, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE. O país mantém um dos maiores rebanhos bovinos do mundo e liderança nas exportações globais de carne bovina. Esses dados indicam abastecimento interno consistente e presença relevante no comércio mundial. Para o consumidor, isso aparece na regularidade de oferta. O açougue não depende de navios chegando de outros países para manter a prateleira abastecida.

A própria FAO, agência de alimentação das Nações Unidas, define segurança alimentar como a garantia de disponibilidade estável de alimentos. Produzir em escala está diretamente relacionado a essa estabilidade.

 Os grãos também estão presentes em itens cotidianos do supermercado, como óleo de cozinha, margarina, massas, biscoitos, chocolates e diversos alimentos processados. Uma safra ampla ajuda a reduzir pressões de custo ao longo da cadeia. Uma quebra tende a se espalhar pelos preços, não apenas na carne, mas também no pacote de macarrão, no pão e nos produtos
industrializados.

O impacto chega ao combustível. O diesel brasileiro recebe adição de biodiesel produzido majoritariamente a partir de óleo vegetal, enquanto a gasolina contém etanol e o milho tem participação crescente nessa matriz. Safras robustas contribuem para menor dependência externa de energia. Combustível mais previsível significa frete mais estável, e o frete compõe o preço de praticamente tudo, do alimento ao eletrodoméstico entregue na sua casa.

O agronegócio representou cerca de um quarto do PIB brasileiro em 2023, segundo levantamento do Cepea/USP em parceria com a CNA, e responde por milhões de empregos diretos e indiretos no país. Cada safra movimenta transportadoras, armazéns, cooperativas, comércio urbano, crédito e serviços. O dinheiro que nasce no campo circula nas cidades e aparece no comércio, no setor de serviços e até na construção civil.

 No cenário internacional, o Brasil responde por parcela dominante das exportações globais de soja e figura entre os principais exportadores de carne bovina, milho, açúcar, café e algodão. Parte expressiva desse volume nasce em regiões altamente produtivas como o Centro-Oeste. Isso significa que consumidores fora do país também dependem da produção iniciada no campo brasileiro.

Em um mundo marcado por crescimento populacional, eventos climáticos extremos e tensões geopolíticas, o Brasil é reconhecido como um dos principais provedores de alimentos do planeta. Quando o agro brasileiro produz bem, ajuda a reduzir pressões inflacionárias globais de alimentos. Quando há quebra de produção, o impacto ultrapassa fronteiras.

Quando o agronegócio exporta, o pagamento entra no Brasil em dólar. Em 2023, o país recebeu cerca de US$ 166 bilhões das vendas do agro ao exterior, segundo o Ministério da Agricultura, o que ajudou o Brasil a vender mais do que comprou do resto do mundo naquele ano.

Esse fluxo de dólares ajuda a reduzir pressões adicionais sobre o câmbio porque aumenta a quantidade da moeda disponível no país. Quando exportadores recebem em dólar e vendem essa moeda aos bancos para pagar salários, fretes e impostos em reais, passa a haver mais dólares circulando internamente.

E o dólar não afeta só quem viaja. Ele interfere no diesel do caminhão, no preço do adubo, no custo das fábricas e, no fim da cadeia, no valor que aparece na etiqueta do supermercado. Quando o dólar dispara, transportar mercadorias fica mais caro e isso chega ao consumidor em forma de aumento nos alimentos, roupas, materiais de construção e até compras online. Quando entram mais dólares das exportações, esses aumentos tendem a ser menores e mais lentos.

O efeito aparece também nas parcelas. A inflação medida pelo IBGE leva em conta principalmente comida e energia. Se esses preços sobem menos, há menor necessidade de juros altos por muito tempo, o que influencia financiamento da casa, do carro e o valor do cartão de crédito.

Na prática, parte da estabilidade de preços que o consumidor percebe não começa no banco nem no supermercado. Começa na venda de grãos e carne para outros países. Por isso, os grandes números não são apenas um ranking distante ou uma vitória de
exportadores. Eles funcionam como um estabilizador social. Não tornam automaticamente o brasileiro mais rico, mas ajudam a preservar o poder de compra e a previsibilidade do custo de vida.

A força produtiva do agro não fica restrita ao campo, ela chega diariamente ao prato, ao combustível, ao emprego e ao cotidiano de quem talvez nunca tenha percebido de onde vinha esse efeito.

Rhayssa Alves é Engenheira Agrônoma, pós-graduada em Agronegócio e certificada em Empreendedorismo em Economias Emergentes pela Universidade de Harvard. Atua na comercialização de gado de corte e elite no Brasil.

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