Num piscar de olhos a utilização da Inteligência Artificial ficou cada vez mais comum e vem se tornando um hábito: um texto para o trabalho, uma legenda para a foto do post, um e-mail que precisava “soar firme, mas gentil”, um desabafo que merecia mais capricho do que a pressa permitiria. E, de repente, aconteceu um fenômeno curioso: o mundo começou a escrever melhor. Não porque todo mundo tenha feito as pazes com a gramática de uma hora para outra, mas porque ficou fácil pedir ajuda. E essa ajuda devolveu uma coisa que andava meio em falta por aí: cuidado.
Começaram a aparecer textos mais limpos, mais coesos, com começo, meio e fim, com qualidade gramatical, bem estruturados, criativos, sarcásticos, dramáticos e bem-humorados
Claro que isso tem seu preço: a dependência. A gente se acostuma rápido com o atalho. O que antes era “vou escrever” virou “vou ver como fica melhor”. E há dias em que o pensamento parece pedir a muleta antes mesmo de tentar andar. Esse ponto incomoda — e talvez devesse incomodar mesmo, porque o conforto, quando exagera, embota.
Ainda assim, não consigo olhar para esse movimento apenas com desconfiança. Tem gente que enxerga ameaça. Eu, enxergo uma contribuição. Porque, no fim da linha, quem lê é sempre o destino final de qualquer texto — e nós, leitores, estávamos meio sedentos. Sedentos de frases que não tropeçam a cada três palavras. Sedentos de argumentos que não se dissolvem no ar. Sedentos de clareza, de ritmo, de alguma beleza possível no cotidiano.
Quando a régua sobe, a conversa melhora. E quando a conversa melhora, a sociedade melhora junto, nem que seja um pouquinho por dia. Ler coisa boa muda a gente. Dá vocabulário, dá repertório, dá fôlego. E quem lê melhor costuma escrever melhor, falar melhor, argumentar melhor — e, principalmente, pensar melhor.
Se a IA está empurrando a média da escrita para cima, mesmo que de modo silencioso, já é um empurrão com consequências enormes. Uma espécie de “educação informal” acontecendo por tabela, enquanto ninguém está olhando.
Agora, confesso que imagino um futuro com uma certa ironia: o dia em que a autenticidade humana vire artigo de luxo. Textos “orgânicos” ganhando valor justamente por carregarem sinais de mão humana. Uma vírgula fora do lugar aqui, uma frase excessiva ali, um deslize honesto como quem diz: “fui eu, de verdade. Mas isso, admito, é só uma especulação pessoal. Ninguém prevê direito o que vem por aí.
De qualquer forma, escrever com a auxílio da AI levará a uma certa padronização de textos. Minha dica é: utilize sim a AI, mas procure por sua própria voz, seu ritmo pessoal, sua identidade, para se destacar do padrão e ser mais interessante ao leitor.
Se for para contribuir com a evolução humana — do pensamento, da linguagem, da leitura — que entre e seja bem-vinda. O resto, como sempre, a história dará seu jeito.
Tulio Cesar Zago é advogado, poeta e palestrante.
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