A frase consiste em uma figura de linguagem, um quiasmo, que, com a inversão da ordem das palavras nas duas expressões, altera seus sentidos e cria um jogo de interpretação. Embora as palavras sejam as mesmas, a inversão muda o foco: a primeira trata do direito de agir, enquanto a segunda trata da habilidade para ser livre.
Anos atrás, os países desenvolvidos do Hemisfério Norte — os ocidentais — perceberam na fragilidade da China e de outros países orientais a oportunidade de explorar mão de obra barata em benefício próprio. Com isso, e sob a justificativa de ajudar nações da região a se desenvolverem, transferiram para lá boa parte de sua capacidade de produção.
De outro lado, os “beneficiados”, percebendo a oportunidade, passaram a usar da exploração de sua capacidade produtiva — ou seja, da mão de obra barata — para também se beneficiarem. Desta feita, fizeram-no através do acesso às tecnologias e ao conhecimento que, consequentemente, acompanhariam o “benefício”, quisessem ou não seus parceiros de ocasião.
No contexto geopolítico, a frase que intitula este artigo explica perfeitamente a transição de potências emergentes e a dinâmica de poder entre o Norte e o Sul Global, aplicada ao exemplo das nações orientais em desenvolvimento acelerado.
Assim, o mundo assistiu à liberdade externa e, muitas vezes, predatória de explorar a capacidade de terceiros, verificada no estágio inicial do processo utilizado por países desenvolvidos e grandes corporações. Tal prática foi posta em marcha através da chamada globalização para explorar a capacidade produtiva de populações pobres e numerosas.
Essa dinâmica — a do capital estrangeiro aproveitar a mão de obra barata para maximizar lucros — era, até pouco tempo, reconhecida apenas por sua capacidade bruta de trabalho, onde o país pobre não passava da condição de peça motriz da engrenagem.
Isso aconteceu até que aqueles países deixassem de ser meros explorados e desenvolvessem capacidade interna própria, o que foi alcançado através de investimentos em educação, tecnologia, infraestrutura e poderio militar, (caso da China) explorando a liberdade do sistema internacional a seu favor.
Eles aprenderam as regras do jogo da OMC, do registro de patentes e do estabelecimento de rotas comerciais independentes, e passaram a usá-las para projetar sua própria influência. Como resultado, deixaram de ser o “objeto” da liberdade alheia para se tornarem “sujeitos” da própria liberdade; passaram a ter capacidade de investir em outros países, ditar preços e garantir autonomia.
Ao considerarmos que os países dependentes têm sua “capacidade” explorada pela “liberdade” de outros, enquanto países soberanos desenvolvem capacidade suficiente para usar da própria liberdade para competir no mercado global, chegamos à conclusão de que o Brasil é um caso frustrante dessa dualidade geopolítica. Até hoje, o país permanece no “fogo cruzado” dessas duas formas de exploração.
Por muito tempo, e como disse, até hoje, nosso país exerceu a sua liberdade para ser o “celeiro do mundo”. Exportamos capacidade bruta de commodities como soja e minério para fomentar a capacidade tecnológica de países como a China, os EUA e nações europeias. Nesse cenário, somos a “capacidade” que os outros têm a “liberdade” de usar para se desenvolver e crescer.
Temos soberania e liberdade diplomática, leia-se relativa, mas falta-nos capacidade interna e vontade política para investir — como os outros fizeram — em educação de qualidade, infraestrutura e, consequentemente, em industrialização, a ponto de estabelecermos nossas próprias regras. Sem essa capacidade, a nossa “liberdade” no cenário global acaba limitada a escolher para quem vamos vender nossos recursos primários, em vez de competir com produtos de alto valor agregado.
Países que, como o nosso, até meados do século passado eram subdesenvolvidos, fizeram seu dever de casa porque deixaram de executar projetos de governo para realizar projetos de Estado. Enquanto eles planejaram o futuro por 50 anos, nós permanecemos planejando o nosso de quatro em quatro e, pior, a cada mudança de comando, desconsideramos praticamente todos os esforços do antecessor. Tudo em nome da (in)significância político-ideológica do governante de ocasião.
De nada adianta tentarmos uma neutralidade pragmática entre as forças dominantes — EUA e China. Desta última temos nos aproximado cada vez mais por ser nosso maior parceiro comercial; no entanto, se continuarmos focando nossa capacidade somente em lhe fornecer matéria-prima e segurança alimentar em troca de eletrônicos e carros, isso em nada ajudará nosso desenvolvimento.
Quanto aos EUA, parceiro histórico tecnológico e armamentista que costuma nos ver como zona de influência, a falta de uma política efetiva de parceria e o distanciamento ideológico hoje em andamento só nos tem prejudicado. Aos dois, o Brasil continua a se submeter de forma errônea, ano após ano.
O grande avanço que precisamos é deixar de ser o país que “oferece capacidade para a liberdade dos outros” e passar a ser o país que “tem capacidade de usar sua liberdade” para projetar poder e riqueza própria. Para ser bem direto: falta “pé no chão”.
Falta coragem e vontade política para impor posição usando nossas potencialidades como instrumentos de desenvolvimento, e não oferecendo-as como subproduto para o progresso alheio. Nosso subdesenvolvimento é claramente voluntário, e é a ele que continuamos a nos sujeitar década após década.
O Brasil já possui liberdade, soberania e recursos, mas ainda patina na capacidade de transformá-los em poder real. Precisamos nos espelhar no que já deu certo. Nesses países o desenvolvimento foi fruto de três pilares, a saber:
- Planejamento de Estado: Planos de longo prazo (quinquenais) em vez de casuísmos quadrienais.
- Educação voltada à tecnologia: Eles pararam de apenas montar produtos alheios e passaram a criá-los. Nós continuamos a exportar o ferro para importar o aço. Para explorar a liberdade do mercado global, precisamos de massa crítica que transforme nossa biodiversidade e minérios em patentes, não apenas em carga de navio.
- Elites com Mentalidade Nacionalista: Enquanto a elite de outras nações foca na soberania tecnológica, boa parte da nossa elite econômica parece mais confortável sendo herdeira de commodities do que arriscar recursos em industrialização pesada.
- Somos um país grande, mas ainda não somos um grande país. De nada adianta ter o carro na garagem se não sabemos dirigir. No jogo de xadrez entre China e EUA, não podemos nos contentar em ser um simples peão. Se não desenvolvermos capacidade técnica própria, continuaremos a ser parte das peças do jogo, em vez de um dos jogadores.
Existe uma ilusão de parceria que mascara nossa relação de dependência. A maioria de nós tem a percepção de que estamos “ganhando” porque os números das exportações sobem, mas raramente questionamos se estamos entregando nosso futuro. De que adianta celebrar recordes em commodities se continuamos importando o fertilizante e a tecnologia para a colheita?.
O que de mais importante podemos tirar como conclusão é que manter a população sem capacidade para perceber a necessidade de mudanças estruturantes é a estratégia de quem quer se perpetuar no poder. É muito mais fácil explorar a capacidade de um país quando sua população não entende o valor da liberdade que está perdendo.
O “Sistema” operante no mundo desenvolvido não quer que aprendamos a explorar nossa própria liberdade de existir. Para ele, o “Sistema”, isso significaria perder um fornecedor barato e um mercado consumidor garantido.
Marcelo Augusto Portocarrero é engenheiro civil
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