Cuiabá, 02 de Março de 2026
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02 de Março de 2026

OPINIÃO Segunda-feira, 02 de Março de 2026, 08:48 - A | A

Segunda-feira, 02 de Março de 2026, 08h:48 - A | A

GABRIEL NOVIS NEVES

Visitas inesperadas

Gabriel Novis Neves

Antes, visita não telefonava.

Chegava.

Batida de palmas no portão, conversa atravessada pela janela, cadeira puxada sem cerimônia.

A casa se adaptava à visita, não o contrário.

Ninguém pedia desculpa pela surpresa. 

A surpresa era a própria alegria.

O café era passado às pressas, o bolo era o que houvesse, a conversa era longa.

O relógio perdia importância.

Hoje, visita precisa combinar, confirmar, avisar de novo.

Perdeu-se a graça do inesperado.

A visita sem aviso trazia notícias, risadas e, às vezes, apenas presença.

E isso bastava.

Era sinal de intimidade.

De portas abertas.

De confiança.

Talvez por isso faça tanta falta.

A visita inesperada quebrava a rotina como quem abre uma janela.

Entrava vento, entrava assunto novo, entrava vida.

Não se perguntava quanto tempo ficaria.

Ficava o tempo que desse, o tempo que pedisse.

As casas eram preparadas para receber gente. Havia sempre uma cadeira sobrando, um copo limpo no escorredor, um resto de bolo guardado para “se alguém chegar”.

E alguém sempre chegava.

Falava-se do calor, da saúde, dos filhos, das pequenas alegrias e dos problemas grandes. Repetiam-se histórias antigas, já conhecidas, mas nunca cansativas.

A repetição era parte do afeto.

Hoje, as casas se fecharam.

Portões, interfones, senhas, agendas.

A visita virou compromisso.

Tem hora marcada para chegar e, quase sempre, hora certa para sair.

O improviso incomoda.

Talvez porque o tempo tenha encolhido.

Ou porque aprendemos a proteger demais o espaço e esquecemos de proteger os vínculos.

Sinto falta da visita que chegava sem avisar, não para comer nem beber, mas para estar. Para sentar um pouco, respirar junto, dividir o silêncio.

A visita inesperada era um gesto simples de afeto.

Um jeito silencioso de dizer: passei por aqui porque você me faz falta.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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