A disputa em torno da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca no Ártico, deixou de ser um episódio excêntrico da diplomacia internacional para se tornar a maior crise entre Estados Unidos e Europa em décadas. O presidente norte-americano Donald Trump não descarta o uso da força para assumir o controle da ilha, tida por ele como estratégica tanto do ponto de vista militar quanto econômico. Do outro lado, governos europeus e as autoridades locais da Groenlândia rejeitam qualquer negociação nesse sentido.
As ameaças de Trump começaram ainda durante o seu primeiro mandato, em 2019, e ganharam força em seu retorno à Casa Branca. Na época, soavam como mais uma declaração exagerada. Os europeus, acostumados a dar respostas políticas e a evitar confrontos diretos com Washington, viram Trump intensificar os ataques. Já é possível dizer que esta é a maior crise diplomática entre os Estados Unidos e a Europa nas últimas décadas.
O presidente americano passou a atacar publicamente líderes europeus, sugeriu que Emmanuel Macron pode deixar o poder em breve e divulgou mensagens privadas do presidente francês e do secretário-geral da Otan, Mark Rutte.
Trump também publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece fincando uma bandeira dos Estados Unidos na Groenlândia e anunciou tarifas de 10% sobre países europeus que enviaram tropas para a região, com a ameaça de elevar a taxa para 25% caso não haja recuo até junho. Em meio a essa escalada, o presidente afirmou acreditar que Washington e a Otan chegarão a um acordo que satisfaça "ambos os lados".
Vale lembrar que os Estados Unidos e a maioria dos países europeus fazem parte da aliança militar e que essa crise já é vista como uma questão existencial para a Otan.
A reação europeia
Desta vez, os europeus finalmente subiram o tom. Durante muito tempo, o continente vinha fazendo vista grossa para as ações de Trump. Agora o cenário é outro, trata-se de uma ameaça direta a um território europeu.
O presidente francês Emmanuel Macron afirmou que a União Europeia não pode aceitar a "lei do mais forte" e cobrou respeito nas relações internacionais. Durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, ele declarou que o bloco prefere estabilidade e crescimento, mas não à custa de intimidação. Nesta quarta-feira (21), Macron solicitou à Otan a realização de um exercício militar na Groenlândia.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou o episódio como um sinal de mudança "sísmica" na ordem internacional e garantiu que o bloco não hesitará em responder.
A Dinamarca também adotou um tom duro. A primeira-ministra Mette Frederiksen descartou qualquer possibilidade de venda da ilha e afirmou que o continente não pode ignorar o risco de uma ação militar norte-americana.
Discurso endossado pelo primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, que não descartou a possibilidade de uma incursão dos Estados Unidos e anunciou que o governo local começou a se preparar para esse cenário.
Nos últimos dias, países europeus também enviaram pequenos contingentes militares à Groenlândia, em um gesto mais simbólico do que operacional. A Alemanha deslocou 13 soldados, a França 15, a Suécia três oficiais, Noruega e Finlândia dois cada, e a Holanda apenas um militar. A Dinamarca enviou cerca de 100.
Segundo líderes europeus, esses primeiros envios têm como objetivo preparar exercícios militares conjuntos e planejar um reforço maior ao longo de 2026.
A frente econômica
Em Bruxelas, a questão também é tratada com muita seriedade no campo econômico. Trump já anunciou tarifas de 10% sobre todos os bens importados de países que enviaram tropas para a Groenlândia. A ameaça é elevar essa taxa para 25% se não houver recuo até junho.
A resposta imediata da União Europeia foi congelar o acordo tarifário com os Estados Unidos, negociado no ano passado e que ainda precisava ser ratificado pelo Parlamento Europeu. Os eurodeputados estão reunidos em Estrasburgo, e os líderes dos principais grupos políticos afirmam que há consenso para suspender a aprovação.
Além disso, duas outras medidas estão sobre a mesa. A primeira é a retomada automática de tarifas contra € 93 bilhões em produtos americanos. Esse pacote estava apenas suspenso e pode entrar em vigor já no início de fevereiro.
A segunda é o chamado Instrumento Anti-Coerção, apelidado de bazuca comercial. Ele permitiria à União Europeia limitar investimentos, contratos públicos e até serviços financeiros de países que usem o comércio como forma de pressão política.
Um desgaste antigo
A crise da Groenlândia é apenas a gota d'água de um copo que vinha enchendo desde o retorno de Trump ao poder. Historicamente, a Europa se acostumou a depender dos Estados Unidos tanto no comércio quanto na defesa. Mas Trump bagunçou esse equilíbrio. Neste mandato, ele já ameaçou sair da Otan, forçando os países da aliança a assumir investimentos muito mais altos em defesa, de até 5% do PIB, e a comprar armamentos americanos. Também mudou completamente a lógica do comércio exterior, aplicando tarifas sem qualquer negociação diplomática prévia. Outro ponto importante é que Trump tem deixado a Europa de fora das negociações de paz entre Rússia e Ucrânia. O resultado é uma relação profundamente abalada.
A União Europeia até tem hoje um plano para investir em defesa, mas isso leva tempo, sem contar a ameaça constante da Rússia. No campo econômico, o bloco também sofre. O crescimento é baixo, e a concorrência da indústria chinesa é cada vez mais agressiva.
Ursula von der Leyen fala em uma nova independência europeia. Mas, na prática, isso ainda está longe de acontecer. Uma crise dessa magnitude com um aliado histórico como os Estados Unidos só torna tudo ainda mais difícil.
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