Quase dois milhões de militares morreram na guerra na Ucrânia desde a invasão russa, iniciada em fevereiro de 2022 -- um dos conflitos mais letais desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Os dados constam em estudo divulgado em janeiro pelo Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
Segundo o levantamento, cerca de 1,2 milhão de soldados russos morreram, ficaram feridos ou estão desaparecidos, sendo 325 mil mortes estimadas. Moscou não divulga números oficiais há mais de dois anos. Do lado ucraniano, as estimativas apontam aproximadamente 600 mil baixas, com até 140 mil mortos confirmados. Os números não incluem civis: a ONU calcula cerca de 15 mil mortos desde 2022, embora admita que o total possa ser maior.
O CSIS afirma que o número de mortos russos nos campos de batalha da Ucrânia é mais de 17 vezes maior do que o de soviéticos no Afeganistão durante a década de 1980, 11 vezes superior ao registrado na Primeira e na Segunda Guerras da Chechênia, nas décadas de 1990 e 2000, respectivamente, e mais de cinco vezes maior do que o total de mortos em todas as guerras russas e soviéticas combinadas desde a Segunda Guerra Mundial.
A expectativa inicial de uma ofensiva rápida contra Kiev deu lugar a uma guerra de desgaste. Avanços territoriais passaram a ser medidos em metros. Em ofensivas no leste, como em Chasiv Yar, Kupiansk e Pokrovsk, o avanço médio diário ficou abaixo de 100 metros, ritmo inferior ao da Batalha do Somme, na Primeira Guerra Mundial.
“A Rússia sofreu o maior número de baixas entre as grandes potências em qualquer guerra desde a Segunda Guerra Mundial, e seu desempenho militar tem sido fraco, com taxas de avanço historicamente lentas e pouco território conquistado nos últimos dois anos”, afirma o estudo. “Para efeito de comparação, o Exército Vermelho levou 1.394 dias após a Operação Barbarossa (a invasão alemã da União Soviética) para chegar a Berlim na Segunda Guerra Mundial. A Rússia atingiu essa marca (1.394 dias) em 19 de dezembro de 2025, mas mal havia chegado a Pokrovsk, a mais de 500 quilômetros de Kiev”, acrescentou o levantamento.
Além do campo de batalha, os impactos atingem a economia russa, pressionada por sanções internacionais, queda de investimentos estrangeiros e inflação que chegou perto dos 10% antes de recuar para 5,6% ao ano. O esforço de manter uma economia de guerra sustentou o PIB, mas deixou lacunas em setores estratégicos, de acordo com o CSIS.
A posição brasileira ao longo da guerra
Ao longo dos quatro anos de conflito, o posicionamento do Brasil passou por mudanças. No início da invasão russa, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), o discurso oficial enfatizava neutralidade. “Lamentamos os conflitos, mas eu tenho um país para administrar”, declarou em junho de 2022.
Pouco antes do início dos ataques, Bolsonaro viajou a Moscou para se encontrar com Vladimir Putin. A visita, descrita por ele como "fantástica", foi alvo de críticas da comunidade internacional, especialmente dos Estados Unidos. Na ocasião, o então presidente manifestou "solidariedade" à Rússia e ecoou argumentos utilizados por Moscou para justificar a ofensiva.
"Ele [Putin] está se empenhando ali em duas regiões do sul da Ucrânia que, em referendo, 90% da população quer se tornar independente e se aproximar da Rússia", afirmou Bolsonaro à época. "Essas questões são particulares, a própria Ucrânia nasceu de um referendo e nós aqui assistimos ao desfecho desse embate. O que a Rússia quer é a independência dessas duas áreas", acrescentou o então presidente.
A reação internacional foi imediata. “O momento em que o presidente do Brasil se solidarizou com a Rússia, enquanto as forças russas estão se preparando para, potencialmente, lançar ataques a cidades ucranianas, não poderia ser pior", declarou na época o Departamento de Estado norte-americano na ocasião.
Semanas depois, Bolsonaro classificou como “exagero” falar em massacre na Ucrânia. A declaração foi contestada pelo encarregado de negócios da embaixada ucraniana no Brasil, Anatoliy Tkach, que afirmou que o presidente estaria “mal informado”. O próprio Volodymyr Zelensky também criticou a postura de neutralidade adotada pelo governo brasileiro.
Na Assembleia Geral da ONU, Bolsonaro voltou a abordar o tema, defendendo um cessar-fogo imediato e questionando as sanções impostas à Rússia. "Não acreditamos que o melhor caminho seja a adoção de sanções unilaterais e seletivas, contrárias ao direito internacional. Essas medidas têm prejudicado a retomada da economia e afetado direitos humanos de populações vulneráveis, inclusive em países da própria Europa", disse.
Lula: entre críticas, condenação e aposta na mediação
Com a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Planalto, o Brasil manteve a tradição diplomática de não alinhamento automático, mas o discurso ganhou novos contornos. Ainda na campanha de 2022, Lula defendeu a ideia de responsabilidades compartilhadas pelo conflito.
"Vejo o presidente da Ucrânia na televisão como se estivesse festejando, sendo aplaudido de pé por todos os parlamentos. Esse cara é tão responsável quanto Putin, porque numa guerra não tem apenas um culpado", afirmou em entrevista à revista Time.
"Ele quis a guerra. Se ele [não] quisesse a guerra, ele teria negociado um pouco mais [...] Mas há um estímulo [ao confronto]! Você fica estimulando o cara [Zelensky] e ele fica se achando o máximo. Ele fica se achando o rei da cocada", disse Lula.
Após assumir a Presidência, o tom se tornou mais moderado. Em 2023, Lula afirmou que a Rússia cometeu um "erro histórico" ao invadir o território ucraniano e passou a admitir, em declarações conjuntas, que o governo de Putin era o agressor. Ainda assim, reiterou que o Brasil não participaria militarmente do conflito.
"O Brasil não tem interesse em passar as munições. Somos um país de paz. Portanto, não queremos ter qualquer participação, mesmo que indireta", declarou.
Paralelamente, Lula passou a defender uma iniciativa diplomática para encerrar a guerra, propondo a formação de um grupo de países neutros para intermediar negociações, ideia que recebeu apoio de Emmanuel Macron e foi apresentada como um possível "G20 pela paz". Em maio de 2025, durante visita a Moscou, voltou a reforçar essa disposição.
“Dissemos ao presidente Putin aquilo que a gente vem dizendo desde que começou a guerra: a posição do Brasil é contra a ocupação territorial do outro país. O Brasil integra um grupo de países que, junto com a China, criou um grupo de amigos e eu disse ao presidente Putin que estamos dispostos a ajudar na negociação, desde que os dois países que se enfrentam queiram que a gente possa participar”, disse na ocasião.
Desconfianças e embates com Zelensky
A relação entre Lula e Zelensky foi marcada por declarações públicas e momentos de tensão. Ainda sob o governo Bolsonaro, o presidente ucraniano criticou a neutralidade brasileira.
"Não se pode ficar neutro, não se pode dizer 'serei um mediador'; um mediador de quê? Entre quem? A guerra não é entre a Rússia e a Ucrânia, é a guerra da Rússia contra o povo da Ucrânia", disse. "Se alguém capturar sua terra, matar seu povo, estuprar suas mulheres, torturar suas crianças, como posso dizer que sou neutro?"
Já em 2023, durante o G7, Lula discursou diante de Zelensky, defendendo a necessidade de uma solução diplomática. "Condenamos a violação da integridade territorial da Ucrânia. Ao mesmo tempo, a cada dia em que os combates prosseguem, aumentam o sofrimento humano, a perda de vidas e a destruição de lares. Tenho repetido à exaustão que é preciso falar de paz."
Em outra ocasião, Zelensky respondeu às críticas feitas por Lula. "Acho que o presidente Lula é uma pessoa experiente, mas não entendo muito bem uma coisa: será que ele acredita que sua sociedade [o Brasil] não entende completamente o que está acontecendo e que ele conta com isso?"
No ano seguinte, voltou a questionar a aproximação do Brasil com países como China e Irã. "A China é um país democrático? Não. E o que dizer sobre o Irã? É um país democrático? Não. E o que dizer da Coreia do Norte? Eles não são países democráticos. Então, o que o Brasil, um grande país democrático, faz nessa companhia? Eu não consigo entender esse círculo de países".
Em setembro de 2025, durante agenda em Nova York, Lula se reuniu com Zelensky. No encontro, Lula reiterou que não acredita em uma solução militar para o conflito e manifestou apoio às recentes iniciativas de diálogo, além de voltar a defender a criação do chamado “Clube da Paz”, grupo de países neutros que atuaria como mediador entre Rússia e Ucrânia. Zelensky, segundo o Palácio do Planalto, agradeceu o apoio brasileiro aos esforços pelo fim da guerra e apresentou um panorama atualizado da situação no campo de batalha.
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