Após mais de 20 dias, os protestos no Irã dão sinais de perda de força depois do uso de violência pelo governo para conter os manifestantes. Até sexta-feira (16), ONGs de direitos humanos afirmavam que o número de mortos passa de 3 mil, além de milhares de civis detidos.
Os atos começaram em 28 de dezembro, quando milhares de pessoas marcharam nas principais cidades iranianas contra o regime do aiatolá Ali Khamenei. As manifestações tiveram início em meio à insatisfação popular com a situação econômica do país.
O governo chegou a prometer a abertura de um canal de diálogo com representantes da sociedade para discutir as demandas da população. No entanto, enquanto afirmava que os protestos eram legítimos, o regime apostou na violência para reprimir os manifestantes.
Com o acesso à internet bloqueado, a comunicação com iranianos se tornou extremamente limitada. As poucas imagens que chegaram ao exterior mostravam ruas cheias, prédios em chamas e relatos de perseguição.
Vídeos que circularam nas redes sociais no início de janeiro mostravam corpos com marcas de balas, que aparentavam ser de manifestantes na região de Teerã.
Dias depois, a agência alemã Deutsche Welle obteve imagens que mostravam dezenas de corpos enfileirados em frente a um necrotério da capital.
Testemunhas ouvidas pela BBC afirmaram que integrantes da Guarda Revolucionária atacaram repentinamente manifestantes em parques e vielas de Fardis, a cerca de 40 quilômetros de Teerã, entre os dias 8 e 9 de janeiro.
“Entraram nas vielas em veículos particulares e atiraram de dentro dos carros contra as pessoas. Eram dois ou três mortos em cada beco”, disse uma testemunha.
Outras pessoas que presenciaram protestos em Teerã e Karaj disseram à BBC que forças de segurança disparavam contra civis a partir de pontes e terraços de prédios. “Se você corresse, não era perseguido, mas, se parasse e gritasse palavras de ordem, abriam fogo”, afirmou uma delas.
Na sexta-feira (16), uma moradora de Teerã contou à Reuters que a filha foi morta há uma semana, depois de participar de uma manifestação perto da casa da família.
“Ela tinha 15 anos. Não era terrorista, nem manifestante violenta. As forças Basij a seguiram quando ela tentava voltar para casa”, disse, em referência a um braço das forças de segurança frequentemente usado para reprimir os manifestantes.
Em entrevista ao podcast O Assunto, o cientista político Demétrio Magnoli disse que onda de protestos é diferente de ciclos anteriores de mobilização no Irã. Segundo ele, as manifestações expõem um regime muito isolado, disposto a recorrer a uma violência sem precedentes para se manter no poder.
“Quando essa história for contada até o fim, nós vamos estar diante de um dos maiores e mais cruéis massacres da história contemporânea. Isso revela que o regime sentiu claramente que lutava pela sua sobrevivência.”
Atos e repressão
Os protestos no Irã começaram após comerciantes iniciarem uma greve e fecharem lojas em reação à situação econômica. As manifestações ganharam força na capital, Teerã, e se espalharam para outras cidades no dia seguinte, com apoio principalmente de jovens e estudantes.
A população enfrenta inflação elevada, acima de 40% ao ano. Somente em 2025, a moeda local perdeu cerca de metade do valor em relação ao dólar e atingiu a mínima histórica.
O descontentamento também cresceu diante da desigualdade entre cidadãos comuns e a elite do país, além de denúncias de corrupção no governo.
Além das questões econômicas, os manifestantes também passaram a exigir a queda do governo do aiatolá Ali Khamenei.
“Todos querem ganhar dinheiro. Mas isso não é mais possível com esses preços. Dá vergonha dizer aos clientes quais são os novos valores”, escreveu um vendedor em uma rede social logo após o início das manifestações.
Iranianos entrevistados pela Associated Press disseram que vários bancos e repartições públicas foram incendiados à medida que os protestos ganhavam força. Para conter a população, forças de segurança usaram armas de fogo, bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes.
Mehmet Önder estava em Teerã a trabalho quando os protestos começaram. Cidadão turco, disse que permaneceu escondido no hotel até o local ser fechado por razões de segurança. Depois, ficou na casa de um cliente até conseguir retornar à Turquia.
“Eu entendo de armas, porque servi no Exército no sudeste da Turquia. As armas que estavam sendo disparadas não eram simples. Eram metralhadoras”, disse à AP.
Narrativa do governo
Manifestantes ouvidos pelo jornal The New York Times relataram que as manifestações ganharam força principalmente pelo sentimento de cansaço da população. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã é uma república teocrática, em que a autoridade máxima é o líder supremo.
Saeed, empresário do setor de tecnologia em Teerã, disse ao jornal que as pessoas têm a sensação de que o país está em queda livre. Segundo ele, a situação piorou após a guerra entre Irã e Israel, em junho de 2024.
“Estou cansado e exausto dos tolos e idiotas que nos governam. Cansado de roubo, corrupção e injustiça”, afirmou. “Eu vi um jovem levar tiros na cabeça.”
Outro manifestante ouvido pelo NYT disse que ou as pessoas morreriam ou sairiam das “condições terríveis” em que estão vivendo.
Enquanto isso, o governo começou a adotar um tom agressivo nos meios de comunicação, fortemente controlados pelo regime. Civis que participavam dos protestos passaram a ser rotulados de “terroristas”.
Em comunicado transmitido pela TV estatal, a Guarda Revolucionária do Irã acusou “terroristas” de atacar bases militares.
O procurador de Teerã afirmou que “terroristas” envolvidos nos protestos poderiam ser condenados à morte.
O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã prometeu “não demonstrar qualquer leniência com sabotadores”.
Ao mesmo tempo, o Irã passou a acusar Israel e os Estados Unidos de jogarem a população — sobretudo os mais jovens — contra o regime. O objetivo, segundo o governo, seria provocar uma intervenção militar estrangeira.
Em discurso no rádio, Ahmad Khatami, membro do alto escalão do regime descreveu os manifestantes como “mordomos” do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e “soldados” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele disse ainda que os dois líderes deveriam aguardar uma “vingança dura”.
Dias antes, o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, também adotou um tom de ameaça: “Diante daqueles que promovem destruição, a República Islâmica não recuará”.
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