Existe uma frase que escuto com frequência no consultório, quase sempre dita em voz baixa, como se fosse uma confissão imprópria: “Eu estou cansada… mas não posso estar.”
Essa mulher não está doente. Não está deprimida. Não está desmotivada. Ela está exausta de décadas sendo tudo para todos. Filha presente, mãe dedicada, profissional exemplar, esposa parceira, amiga disponível, organizadora da família, mediadora de conflitos, gestora invisível da vida doméstica e emocional de quem está ao redor.
Ela aprendeu, desde muito cedo, que ser mulher é dar conta.
E agora, aos 40 e poucos, 50, o corpo e a mente começam a enviar um recado que a cultura nunca a ensinou a ouvir: você não precisa mais.
O problema é que, quando essa percepção chega, ela não vem acompanhada de alívio. Vem acompanhada de culpa.
Culpa por não ter mais a mesma energia. Culpa por não querer resolver tudo. Culpa por desejar silêncio. Culpa por não querer atender o telefone. Culpa por querer delegar. Culpa por simplesmente não querer.
O que quase ninguém explica é que isso não é fraqueza de caráter, nem falta de amor pela família, nem egoísmo tardio. Existe um componente biológico muito claro nessa mudança. A transição hormonal que começa na perimenopausa altera não apenas o ciclo menstrual, mas a forma como o cérebro lida com estímulos, estresse, sobrecarga e prioridades. O limiar de tolerância muda. A necessidade de recolhimento aumenta. A capacidade de multitarefa, que sempre foi exigida dessa mulher, passa a cobrar um preço alto demais.
O que antes era possível, agora é pesado.
E é aí que nasce o conflito interno mais silencioso dessa fase da vida: ela não quer mais viver no modo sobrevivência, mas não sabe como sair dele sem sentir que está falhando.
Durante anos, essa mulher foi validada por aquilo que fazia. Pela eficiência. Pela entrega. Pela capacidade quase sobre-humana de administrar o caos. Quando ela começa a desacelerar, surge uma pergunta dolorosa: se eu não fizer tudo, quem eu sou?
Essa é uma crise de identidade que quase nunca é discutida nos consultórios, nas rodas de conversa ou nos conteúdos sobre menopausa. Fala-se muito sobre calorões, reposição hormonal, pele, ossos, libido. Fala-se pouco sobre o cansaço existencial de quem passou a vida inteira sendo forte.
O que vejo diariamente é que essa fase não pede mais força. Pede permissão.
Permissão para não dar conta. Permissão para não estar disponível o tempo todo. Permissão para deixar para amanhã. Permissão para não resolver o problema de todo mundo. Permissão para existir sem estar em função de alguém.
E, curiosamente, quando essa mulher começa a se permitir, a saúde melhora. O sono melhora. A ansiedade reduz. A irritação diminui. O corpo responde. Porque, muitas vezes, o que estava adoecendo não era a falta de hormônio, era o excesso de responsabilidade emocional acumulada por décadas.
A mulher 40+ não está ficando fraca. Ela está ficando consciente do próprio limite.
E isso é profundamente saudável.
Talvez a maior transformação dessa fase não seja hormonal. Seja psicológica. Seja o momento em que ela percebe que pode continuar amando a família, sendo competente no trabalho, sendo presente na vida de quem ama, mas sem se abandonar no processo.
Não querer mais dar conta de tudo não é um sinal de falha.
É o início da longevidade emocional.
Bruna Ghetti é ginecologista, referência em tratamentos íntimos e longevidade.
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