Há termos capturados por algum grupo que, perdendo a ideia original, adquirem significados próprios. É o caso da palavra progressista, que deveria ser aplicada a cidadãos que defendem o progresso e o desenvolvimento de uma região ou grupo e que, politicamente, passou a designar as pessoas com visão mais à esquerda, como se os outros também não fossem adeptos de melhorias e modernidade.
Da mesma forma, há poucos anos, aqui no Brasil, passaram a chamar de patriotas somente os que se identificavam com o nacionalismo exagerado proposto por um grupo de políticos de direita.
Uns se achando mais patriotas que os adversários, e outros, considerando-se mais progressistas e, portanto, mais evoluídos e cultos, exibem o mesmo valor (ou vício), próprio dos extremistas. Aliás, esta é outra palavra recorrente nas discussões. Agora não basta “xingar” o outro de direitista ou esquerdista; há de se acrescentar a palavra “extrema”, o que dá um upgrade ao xingamento.
Os extremistas são muito parecidos entre si. Mudam as bandeiras, as cores, a Bíblia ou o Alcorão, a preferência pelo Bolsonaro ou pelo Lula, escolhem inimigos pela ideologia e usam palavras de ordem que caracterizam seus grupos.
Há o extremista político, o religioso, o ambientalista, o defensor dos animais, o nacionalista, o ateu militante, os identitaristas. Uns querem salvar a pátria, outros o planeta, a moral, a tradição, extinguir a pobreza ou perpetuar as fortunas. O objeto da devoção muda; esta continua.
Todos têm uma característica em comum: a certeza de que estão certos e os outros, errados. Também exibem uma confiança plena na inteligência própria e na burrice dos que pensam diferente.
Mas, às vezes, parte deles não se interessa em saber direito o que significam esquerda e direita.
Para alguns, direita é capitalismo, livre mercado, propriedade privada e Estado menor. Para outros, conservadorismo nos costumes, religião, patriotismo, família tradicional e autoridade.
Na esquerda ocorre a mesma simplificação. Esquerda pode significar social-democracia, socialismo, comunismo, maior intervenção estatal, redistribuição de renda, defesa de minorias.
Esses vieses, muitas vezes, estão mesclados em um mesmo indivíduo. Alguém pode ser economicamente conservador e liberal nos costumes. Outro, tradicional quanto aos costumes e gostar de um Estado forte e protecionista.
É possível que a maioria queira usufruir dos valores conservadores que a direita prega, juntamente com as vantagens da política de Estado que a esquerda defende.
Nesses dias de confronto político, talvez baste observar o comportamento dos eleitores para ver seu grau de tolerância ou o dogmatismo.
Ele admite dúvida? Consegue ver algumas qualidades e alguns defeitos tanto no Lula quanto no Bolsonaro? admite no aliado os defeitos que condena no adversário? Consegue mudar de opinião e ver que os que escolhem o PT em vez do PL, e vice-versa, não são necessariamente burros?
Os extremos acabam se encontrando não porque defendem as mesmas coisas, mas porque pensam da mesma forma: minha turma é mais inteligente, mais preparada e muito mais lógica.
No fim, pode ser que o intolerante do PT e o do PL sejam parecidos. De repente só estão em lados opostos.
Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor.
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