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OPINIÃO Segunda-feira, 26 de Outubro de 2026, 13:43 - A | A

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Rosana Leite

Lise Meitner: do átomo ao silêncio

Rosana Leite

Rosana Leite

Elise Meitner teve o nome abreviado para Lise e foi uma física nuclear austríaca e sueca. Nasceu em Viena no dia 07 de novembro de 1878. Faleceu em Cambridge, 27 de fevereiro de 1968.              

Contribuiu para a ciência, tendo papel fundamental na descoberta da fissão nuclear, mesmo em época em que o acesso feminino à educação superior enfrentava profundas restrições. Apesar do grande feito, capaz de transformar a humanidade, foi silenciada e, como tantas mulheres, vítima das muitas exclusões e injustiças em ocupar espaços de prestígio intelectual.               

Meitner desafiou a organização social. Em uma época na qual poucas mulheres conseguiam ingressar nas universidades europeias, dedicou-se ao estudo da física e conquistou, em 1906, o doutorado pela Universidade de Viena. Sua formação intelectual ocorreu em um ambiente marcado por obstáculos institucionais, preconceitos culturais e pela permanente necessidade de demonstrar uma competência que, aos homens, frequentemente era presumida.              

De origem judaica, Lise ajudou a desvendar os segredos do átomo. Durante séculos, o conhecimento científico foi apresentado como território predominantemente masculino, enquanto mulheres extraordinárias tiveram suas contribuições diminuídas, apropriadas ou simplesmente esquecidas.  

Foi em Berlim que ela passou a desenvolver suas pesquisas, estabelecendo uma longa colaboração científica com o químico Otto Hahn. Durante aproximadamente três décadas, ambos investigaram fenômenos relacionados à radioatividade e à estrutura nuclear. Entretanto, mesmo diante de sua reconhecida capacidade intelectual, Meitner enfrentou restrições que revelavam a dimensão institucional do preconceito. Nos primeiros anos de sua atuação, trabalhou em condições inferiores às oferecidas aos pesquisadores homens, inclusive com limitações de acesso aos espaços laboratoriais.              

A filósofa e historiadora Donna Haraway firmou que a produção do conhecimento não acontece a partir de uma posição absolutamente neutra e desvinculada das relações sociais. Toda atividade científica se desenvolve em contextos históricos atravessados por disputas de poder, interesses e perspectivas. A experiência de Meitner confirma que até mesmo instituições comprometidas com a objetividade podem produzir e reproduzir desigualdades profundamente arraigadas.              

Por sua origem judaica, Meitner passou a enfrentar os efeitos da perseguição racial promovida pelo regime de Adolf Hitler. Em 1938, diante do agravamento das ameaças, foi obrigada a abandonar a Alemanha, refugiando-se na Suécia.              

A condição de mulher e judia colocou-a diante de formas distintas e simultâneas de exclusão.  Ela também se tornou alvo de uma política de perseguição racial que procurava expulsar determinadas pessoas da comunidade científica e, em última instância, da própria humanidade. E foi nesse contexto de exílio e ruptura que sua contribuição alcançou uma das maiores realizações da física contemporânea.               

Lise Meitner, em colaboração com seu sobrinho, o físico Otto Robert Frisch, elaborou a explicação teórica do fenômeno, descobrindo que o núcleo atômico poderia dividir-se em partes menores, liberando enorme quantidade de energia. A descoberta modificou definitivamente os rumos da ciência e da história mundial. Mas, em 1944, o Prêmio Nobel foi concedido exclusivamente a Otto Hahn, sem contemplar Lise Meitner. A decisão tornou-se um dos episódios mais discutidos da história do reconhecimento científico.           

A invisibilidade das mulheres não se limita ao passado. Nas universidades, nos centros de pesquisa, nas academias e nas instituições públicas, persistem desigualdades relacionadas à ocupação de posições de liderança, à distribuição de financiamento, ao reconhecimento profissional e à participação nos espaços decisórios.            

Em 1997, o elemento químico de número atômico 109 recebeu oficialmente a denominação meitnério, em reconhecimento à sua contribuição para a física nuclear.

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT.

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