Vivemos, muitas vezes, como prisioneiros da própria memória. Presos a dores antigas, repetimos histórias que já não nos servem e aceitamos como verdade aquilo que são apenas sombras do passado. A alegoria da Caverna de Platão, escrita há mais de dois mil anos, continua assustadoramente atual: ainda confundimos aparência com realidade e medo com proteção.
Minhas memórias, como as sombras na parede da caverna, projetam imagens distorcidas de experiências que tento esconder de mim mesma. Elas surgem sem aviso, moldam escolhas, influenciam relações e determinam, silenciosamente, quem acreditamos ser. O problema é que, quando nos acostumamos às sombras, passamos a temer a própria luz.
A escuridão não falha. Ela sempre retorna. E, quando chega, é mais confortável refugiar-se no fundo da caverna do que enfrentar o esforço de sair. Ali, entre velhos medos e justificativas conhecidas, criamos a ilusão de segurança. Mas essa segurança tem um preço alto: estagnação, repetição e perda de sentido.
É preciso dizer com clareza: fugir de si mesmo não é proteção, é prisão. As dores que evitamos encarar não desaparecem — apenas mudam de forma. Manifestam-se em relações quebradas, escolhas adiadas, sonhos abandonados. Olhar apenas para frente, ignorando o que ficou atrás, não nos conduz à saída; apenas nos mantém mais profundamente no escuro.
Platão nos ensinou que viver entre sombras é viver enganado. Mas talvez sua maior lição seja outra: a libertação exige coragem. Coragem para reconhecer a própria ignorância, para questionar verdades herdadas e para enfrentar aquilo que nos assombra. Não se trata apenas de pensar melhor, mas de viver com mais honestidade consigo mesmo.
Sair da caverna dói. A luz fere os olhos de quem passou tempo demais na escuridão. O primeiro passo é confuso, o caminho é incerto e o medo insiste em nos puxar de volta. Ainda assim, não há outro modo de se encontrar.
Talvez o verdadeiro fundo da caverna não seja o lugar onde estamos presos, mas o momento em que decidimos mudar. Porque ninguém se reconcilia com a própria história sem antes atravessar suas sombras. E ninguém encontra a própria luz sem aceitar, com coragem, que já viveu tempo demais no escuro.
Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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