Novos estudos liderados pela Embrapa Meio Ambiente reforçam a base científica da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio) e ampliam a transparência sobre a intensidade de carbono dos biocombustíveis produzidos no país. Os artigos, publicados em periódicos internacionais de acesso aberto, preenchem lacunas técnicas e fortalecem o entendimento global sobre como o Brasil calcula a intensidade de carbono de etanol, biodiesel e biogás, além de revelar variações significativas nas emissões associadas à produção agrícola em diferentes estados.
Criado em 2017, o RenovaBio busca reduzir as emissões do setor de transportes e cumprir o compromisso do Brasil no Acordo de Paris. A política se apoia na RenovaCalc, calculadora oficial que compara a intensidade de carbono dos biocombustíveis com seus equivalentes fósseis — gasolina, diesel e gás natural. Embora a metodologia tivesse passado por consulta pública e avaliação técnica no Brasil, a documentação detalhada estava disponível apenas em português.
Com a publicação da nota técnica no periódico internacional Sustainability, a metodologia adotada na contabilidade de carbono se torna mais transparente para a comunidade científica global.
“A partir da publicação em uma revista internacional e em língua inglesa, aumentamos o alcance para a divulgação não só da calculadora como também da Política Brasileira de Biocombustíveis, permitindo transparência, usabilidade e escrutínio”, afirma a pesquisadora Marília Folegatti, do Grupo de Avaliação do Ciclo de Vida da Embrapa Meio Ambiente.
A calculadora sustenta a certificação das usinas e determina quantos créditos de descarbonização, os CBIOs, podem ser colocados no mercado pelas distribuidoras de combustíveis.
“A RenovaCalc é peça fundamental não só na certificação das usinas, mas também no cálculo dos créditos negociados na Bolsa de Valores”, destaca Mateus Chagas, pesquisador do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) e um dos responsáveis pelo desenvolvimento da ferramenta. Hoje, 331 usinas estão certificadas — cerca de 75% dos produtores de biocombustíveis do país.
Entre 2020 e 2024, o uso desses combustíveis evitou a emissão de 157,8 milhões de toneladas de CO₂ no transporte, e a meta de 2025 prevê reduzir mais 49,4 milhões de toneladas.
Além da nota técnica, a Embrapa e a Unicamp publicaram um estudo sobre a pegada de carbono da soja, milho e da cana-de-açúcar — culturas que representam mais de 80% da área plantada no país e são essenciais para alimentos, rações e biocombustíveis. O trabalho consolida dados submetidos por produtores ao RenovaBio, no caso da cana, e informações levantadas junto a agricultores e agrônomos para soja e milho.
Para Nilza Patrícia Ramos, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e idealizadora do estudo, a publicação representa o fechamento de anos de pesquisa e serve de suporte para recomendações técnicas voltadas para a descarbonização destas cadeias produtivas.
Já Lucas Pereira, da Embrapa, destaca o ineditismo da abordagem regional. “Medir a pegada de carbono da produção agrícola ainda é um desafio, porque muitas avaliações usam médias nacionais e ignoram diferenças locais, o que dificulta estratégias de mitigação bem calibradas”, afirma.
O levantamento em escala estadual revelou forte variabilidade nas emissões de cana e milho, influenciadas por fatores como uso da queima na colheita da cana-de-açúcar em alguns estados e impactos relacionados à expansão de grãos sobre vegetação nativa e mesmo pastagens.
Os resultados devem contribuir para o aperfeiçoamento da RenovaCalc, já que a caracterização detalhada das culturas pode subsidiar a construção de perfis agrícolas mais representativos dentro da metodologia de cálculo do RenovaBio.
CLIQUE AQUI e faça parte do nosso grupo para receber as últimas do Noticia Max.



0 Comentários