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OPINIÃO Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2026, 08:31 - A | A

Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2026, 08h:31 - A | A

Jorge Gonçalves Filho

Taxa Selic a 15%: como pode?

Jorge Gonçalves Filho

Novamente, o Copom (Comitê de Política Monetária) manteve a taxa Selic em 15% ao ano por decisão unânime dos oito membros que participam do colegiado; logo, vale registrar que no Copom não há decisão monocrática, o que afasta a responsabilidade única do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Como noticiado em artigos de meios de comunicação especializados, os agentes do mercado financeiro já esperavam a manutenção da taxa Selic em 15% a.a., assim como a sinalização de que se antevê a flexibilização da política monetária com redução da taxa na próxima reunião com Copom, que deve ocorrer em 17 e 18 de março.

O comunica do Banco Central, publicado em 28 de janeiro, tem todas as explicações técnicas que balizaram a decisão do Copom. Sem querer aqui entrar em detalhes, menciona o ambiente externo incerto, que exige cautela por parte dos países emergentes; e o ambiente doméstico, com trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, mercado de trabalho resiliente e arrefecimento da inflação, apesar das projeções ainda acima da meta em um horizonte relevante; e comenta os cenários para os riscos de alta ou baixa da inflação, taxa de cambio, etc., e que o Comitê segue acompanhando os impactos do contexto geopolítico e o desenvolvimento doméstico da política fiscal.

Segue, quase ao final, afirmando que a estratégia em curso tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.

Muito bem, sugiro que todos leiam atentamente o comunicado do BC, mas não se conformem com as explicações, que podem ser adequadas tecnicamente, mas deixam a desejar quando analisamos que a Selic a 15% a.a. gera juros reais inaceitáveis de aproximadamente 10 % a.a., o segundo maior do mundo, perdendo apenas para a Rússia.

Com a elevada taxa Selic, de 15% a.a., o mercado financeiro encontra respaldo para manter as também elevadas taxas praticadas no mercado de crédito, a saber, alguns exemplos: 

Pessoa física: taxa média de juros no crédito livre de aproximadamente 60% a.a.
Cartão de crédito rotativo: cerca de 440% a.a.
Empresas: juros na concessão de crédito livre de 24% a 25% a.a.

Assim, fora do mundo do sistema financeiro, o mercado tem visto seus resultados serem eliminados dadas as elevadas taxas de juros praticadas no mercado de crédito, haja vista que entre as empresas de varejo listadas em bolsa, em seus balanços de 2025, na média, 5% da receita bruta foi consumida com remuneração ao capital de terceiros (juros), com crescimento de 26% sobre o ano anterior, enquanto o custo com pessoal, por exemplo, permaneceu estável em 8%. Somando-se a situação do elevadíssimo custo de capital para as empresas, os consumidores também estão cada vez mais endividados e inadimplentes, não conseguindo fazer frente aos encargos cobrados, ambas situações inaceitáveis para uma economia que precisa crescer.

Há uma economia real que precisa ser mais ouvida. Mesmo a recente iniciativa do Banco Central, o lançamento da pesquisa Firmus, com o objetivo de captar a percepção das empresas não financeiras sobre a situação de seus negócios, parece ainda não estar surtindo efeito. Caso estivesse, muito provavelmente haveria redução da taxa Selic.

Como pode ser mantida a elevada taxa Selic em 15% a.a.? Basta ir ao mercado, junto a pequenas, médias e grandes empresas para se constatar a gravidade e as consequências que este nível de juros está gerando na operação, nos investimentos e no futuro das empresas. Destaca-se que muitas empresas pararam ou reduziram seus investimentos, em especial as de varejo. E o reflexo negativo não tardará por chegar.

Aguardar março para ver a taxa Selic cair 0,25 p.p. ou 0,50 p.p., esperar dezembro para alcançar 12,5% ou 12% a.a., como o mercado financeiro tem previsto, é uma queda muito pequena, insuficiente para que boa parte das empresas consiga sobreviver ao elevadíssimo custo de capital.

As empresas não financeiras requerem uma taxa menor, os consumidores precisam de uma taxa menor, o país necessita de uma Selic menor. Se esta taxa Selic é reflexo, efeito de várias causas, então que se ataque com resultado as causas internas indicadas pelo Banco Central, e que este tenha temperança para acelerar a queda da Selic.

Como pode? Para uma inflação que está sendo projetada entre 3 a 4% a.a. em 2026, ter uma Selic de 15% a 12% é inaceitável. É urgente a queda da Selic para abaixo de dois dígitos.

Jorge Gonçalves Filho - Presidente do IDV – Instituto para Desenvolvimento do Varejo

 

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