O Brasil tem tecnologia, escala de produção e experiência em políticas de biocombustíveis para ampliar sua participação no mercado global de energia renovável. O desafio, agora, é transformar essa vantagem em demanda internacional. Essa foi uma das principais mensagens do painel “Do alimento à energia: como o Brasil está redefinindo seu papel no mundo”, realizado nesta sexta-feira (6), durante a 6ª edição do Fórum Planeta Campo, promovido pelo Canal Rural.
Representantes do governo, da indústria e da academia defenderam maior articulação entre empresas, entidades setoriais e poder público para abrir mercados, enfrentar barreiras regulatórias e ampliar o reconhecimento internacional do etanol brasileiro. O debate também destacou oportunidades em combustíveis sustentáveis para aviação e navegação, além da integração entre a produção de grãos, a pecuária e a geração de energia.
Para Marcos Jank, professor sênior de Agronegócio do Insper, o país precisa avançar na internacionalização da bioenergia. Segundo ele, o Brasil consolidou um programa amplo e eficiente de biocombustíveis desde a década de 1970, mas ainda não conseguiu levar essa experiência ao mercado externo na mesma proporção.
“O nosso programa de bioenergia é o mais completo do mundo. […] Está faltando se consolidar lá fora”, afirmou.
Jank defendeu a construção de uma estratégia conjunta para ampliar o uso de biocombustíveis em outros países. Na avaliação dele, a iniciativa deve reunir governo, empresas, entidades setoriais e universidades, em vez de depender de ações isoladas.
O professor também citou o potencial dos combustíveis sustentáveis de aviação e dos combustíveis para transporte marítimo. Para ele, a expansão dessas alternativas pode abrir novos mercados para a produção brasileira em um cenário de maior protecionismo comercial e mudanças na geopolítica.
Barreiras regulatórias desafiam o etanol brasileiro
A coordenadora de Agronegócios da ApexBrasil, Paula Soares, afirmou que o etanol brasileiro já desperta interesse internacional, mas ainda enfrenta obstáculos para ampliar sua presença no exterior. Entre eles estão restrições regulatórias, desinformação sobre os impactos ambientais da produção e a necessidade de demonstrar os benefícios dos biocombustíveis com dados.
“Existe uma necessidade de conduzir ações de imagem, de discurso e de narrativa de forma conjunta dentro e fora do Brasil”, disse.
Paula destacou que o país precisa combater a percepção de que a produção de combustíveis renováveis compete necessariamente com a oferta de alimentos. Ela lembrou que os sistemas produtivos brasileiros permitem integrar diferentes culturas e aproveitar coprodutos da indústria, ampliando a eficiência da produção agropecuária.
A executiva também apontou oportunidades na expansão das misturas de etanol em outros países, especialmente na União Europeia e na Ásia. Para ela, a abertura de mercados não depende apenas de ampliar as exportações brasileiras, mas também de ajudar outros países a desenvolver políticas que estimulem o consumo de combustíveis renováveis.
O secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Cleber Soares, ressaltou que o avanço depende de políticas públicas, abertura comercial e capacidade de atender às exigências dos compradores.
Ele citou a plataforma Agro Brasil + Sustentável, apresentada como uma ferramenta para demonstrar a conformidade da produção agropecuária brasileira com critérios de sustentabilidade. Segundo Soares, a iniciativa vem sendo discutida com representantes do setor produtivo e interlocutores europeus diante das exigências relacionadas ao desmatamento.
O secretário também alertou para o avanço de protocolos privados de sustentabilidade e rastreabilidade. Na avaliação dele, governo e empresas precisam antecipar essas exigências para preservar a competitividade brasileira.
Rastreabilidade pode ampliar valor da pecuária
Na cadeia da carne bovina, o diretor-executivo de Originação e Confinamentos da Friboi, Eduardo Pedroso, afirmou que o aumento da produtividade e das exportações elevou a necessidade de atender às exigências de diferentes mercados.
Segundo ele, a pecuária brasileira passa por uma nova etapa de evolução tecnológica, com intensificação da produção, melhoramento genético e ganhos de eficiência. A ampliação das exportações, no entanto, exige maior capacidade de identificar a origem dos produtos e separar a produção conforme as especificações de cada destino.
Pedroso defendeu o uso de tecnologias de rastreabilidade e protocolos específicos para atender às exigências dos compradores. Para ele, a possibilidade de trabalhar com diferentes padrões, em vez de adotar uma única regra para toda a produção, pode melhorar a competitividade do setor.
O executivo também destacou o papel do etanol de milho nessa integração. O DDG, coproduto obtido na produção do combustível e utilizado na alimentação animal, exemplifica como a indústria de biocombustíveis pode gerar oportunidades adicionais para a pecuária.
Integração entre alimentos e energia abre novas fronteiras
O professor Gonçalo Pereira, líder do Laboratório de Genômica e Bioenergia da Unicamp, defendeu que a produção de alimentos e a geração de energia renovável sejam tratadas como atividades complementares.
Para ele, a experiência brasileira com o Proálcool, lançado na década de 1970, demonstra a capacidade de transformar conhecimento científico e tecnologia em sistemas produtivos. O pesquisador também apontou o potencial de novas matérias-primas, como o agave e a macaúba, para ampliar a produção de biocombustíveis em regiões com limitações para culturas tradicionais.
Pereira ressaltou, ainda, que a geração de energia renovável pode contribuir para o desenvolvimento regional ao estimular investimentos, criar empregos e aproveitar áreas com potencial produtivo ainda pouco explorado.
Ao projetar os próximos cinco anos, os participantes convergiram sobre a necessidade de organizar uma estratégia de longo prazo. Para Jank, o Brasil precisa unir os diferentes segmentos da bioenergia e ampliar sua atuação internacional.
A avaliação é que a experiência acumulada pelo país oferece oportunidades para avançar no mercado de combustíveis renováveis. Para aproveitá-las, porém, será necessário coordenar políticas públicas, investimentos privados, inovação e ações comerciais para transformar a capacidade de produção em demanda efetiva.
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