Em meio às discussões sobre consumo consciente e os impactos da indústria da moda, os brechós vêm conquistando espaço entre consumidoras que buscam mais do que preços baixos. Em Cuiabá, o segmento também ganhou novas características, com o surgimento de brechós boutique que apostam em curadoria, marcas reconhecidas e peças selecionadas.
É nesse cenário que se destaca a trajetória da LG Brechó, negócio criado há cerca de dez anos a partir de uma necessidade pessoal da proprietária. Na época, Ligiane Guelsi tinha uma criança de três anos e um bebê e enfrentava uma rotina intensa de trabalho, com pouco tempo para acompanhar o crescimento dos filhos.
A mudança de residência acabou revelando uma oportunidade. Ao perceber a quantidade de roupas que tinha em casa, criou um grupo para vender as próprias peças. A procura cresceu rapidamente e começaram a surgir pedidos por outros tamanhos. Foi quando ela percebeu que poderia transformar a iniciativa em um negócio.
“Nasceu de uma necessidade. Eu estava com uma criança de 3 anos e outro bebê, chegava muito tarde do trabalho e mal os via. Certo dia, ao ter que mudar, percebi que tinha muita roupa. Criei um grupo e comecei a vender minhas roupas. Foi aparecendo muita gente pedindo outros tamanhos. Ali percebi um negócio”, conta.
A proposta também estava ligada a uma mudança de vida. Trabalhar com o brechó permitiria à empresária buscar algo que considerava essencial: mais tempo de qualidade com os filhos.
Da roupa usada à experiência de boutique
Embora o mercado de segunda mão seja frequentemente associado a peças baratas, a proprietária explica que existem diferentes perfis dentro do segmento. O conceito de brechó boutique, segundo ela, está relacionado principalmente à curadoria e à seleção de produtos voltados a um público específico.
“Existe bazar, com peças muito baratas e sem curadoria; brechó boutique, com curadoria e peças selecionadas de acordo com o público; e também o brechó de luxo, que trabalha com artigos de luxo”, explica.
Na LG Brechó, a seleção das peças é feita pessoalmente pela proprietária. Para entrar no catálogo, os itens precisam estar em perfeito estado, limpos, cheirosos, atuais e alinhados ao perfil das clientes atendidas.
A curadoria é justamente um dos elementos que ajudam a diferenciar o negócio de uma loja convencional de roupas usadas.
Marcas e exclusividade
O público da LG Brechó reúne mulheres de diferentes idades, aproximadamente entre 20 e 60 anos. De acordo com a proprietária, a persona do negócio é formada principalmente por mulheres financeiramente estruturadas, viajadas e familiarizadas com o valor de grandes marcas.
Nesse público, preço não é necessariamente o principal atrativo. Marcas e exclusividade aparecem como fatores importantes na decisão de compra.
As clientes procuram tanto roupas para ocasiões especiais quanto para o cotidiano, mas o uso diário concentra a maior parte da demanda. A possibilidade de encontrar uma peça diferenciada também pesa na experiência.
“Exclusividade! Peças que ela sairá na rua e a possibilidade de encontrar outras com a mesma roupa seja quase impossível”, afirma a empresária ao explicar o que uma mulher pode encontrar em um brechó boutique que talvez não encontre em uma loja convencional.
Um mercado que mudou em Cuiabá
Quando começou, há cerca de uma década, a empresária encontrou um mercado ainda pequeno na capital mato-grossense. Segundo ela, havia poucas referências locais no segmento e foi necessário construir o negócio utilizando a experiência adquirida no varejo.
Com o passar dos anos, ela acompanhou a expansão do número de brechós e também viu algumas de suas antigas clientes iniciarem negócios próprios no setor.
“Quando comecei era tudo mato, como costumam dizer por aí. Existiam duas pessoas mais relevantes no segmento, mas não tinha ninguém em quem me inspirar e fui fazendo usando minha expertise de varejo”, relata.
Para ela, o crescimento do número de empreendimentos pode contribuir para fortalecer o mercado como um todo. A empresária conta que costuma incentivar clientes interessadas em entrar no segmento.
Apesar da expansão, porém, ela acredita que o consumo de roupas de segunda mão ainda enfrenta resistência entre parte dos consumidores cuiabanos. Na avaliação dela, menos de 20% da população compra em brechós.
Sustentabilidade entra na conversa
O crescimento dos brechós também está relacionado ao debate sobre o consumo consciente. Ao prolongar a vida útil de uma peça, o mercado de segunda mão apresenta uma alternativa ao descarte e à compra constante de roupas novas.
Para a proprietária da LG Brechó, essa relação é direta. “Total!”, responde ao ser questionada se o brechó boutique pode ser uma forma de consumo consciente.
Ao mesmo tempo, ela faz uma ressalva sobre o comportamento do consumidor. Na sua percepção, apesar da discussão sobre sustentabilidade, as pessoas ainda não necessariamente deixaram de comprar por impulso ou passaram a buscar peças apenas pelo significado.
No caso da LG Brechó, a sustentabilidade divide espaço com outros fatores, especialmente a busca por marcas, qualidade e exclusividade.
Do verão cuiabano ao Brasil
O clima quente de Cuiabá influencia parte das escolhas das consumidoras, mas a atuação da LG Brechó ultrapassa as características do mercado local. Com clientes em diferentes regiões do país, o negócio comercializa peças de verão e inverno durante todo o ano.
Essa diversidade amplia as possibilidades para quem procura roupas de segunda mão e mostra como o brechó boutique pode funcionar para além de uma demanda exclusivamente regional.
Para quem ainda não tem o hábito de comprar em brechós, a empresária deixa uma sugestão: experimentar estabelecimentos que trabalham com curadoria.
“Se dê a oportunidade de conhecer um brechó com curadoria apurada, aquele que seleciona bem os produtos, e você mudará sua visão”, aconselha.
Mais do que uma alternativa para renovar o guarda-roupa, a experiência da LG Brechó mostra como o mercado de segunda mão em Cuiabá vem construindo uma identidade própria, aproximando moda, marcas, exclusividade e consumo consciente em um mesmo espaço.
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